quarta-feira, 18 de janeiro de 2006

Corinna

Corinna, triste e em depressão, sentou a beira do lago que ficava do lado de sua casa, ela não queria estar com ninguém a não ser sua própria angustia de ter tido uma existência nula. Casou-se aos 13 anos, praticamente vendida pelo seu pai a um comerciante da cidade grande, viu sua juventude se esvair na forma de sucessivas gravidezes e de cuidar de um homem já idoso, que a tratava como se fosse uma criada qualquer.
Nasceram 5 filhos, sendo que 2 deles, prematuros, morreram no parto. Sobraram Joanne, James e John. Seu marido não chegou a ver o primeiro aniversário do caçula James, um infarto fulminante acabou com ele. Ainda bem que ele tinha algumas posses, o que contribuiu para que Corinna não fosse jogada na rua da amargura. Com três crianças para criar, ela comeu o pão que o diabo 17/amassou, mas mesmo assim, ela agradecia aos céus por conseguir vencer a tudo e a todos. Mesmo com todos os infortúnios, Corinna era uma pessoa muito religiosa e jurou em vida não pertencer a nenhum outro homem. Ela criou dentro de si uma parede. Para ela Deus a estava provando...
Sua filha Joanne, quando tinha 16 anos, foi violentada e espancada por um grupo de desocupados e com o passar do tempo foi se tornando cada vez mais paranóica e acabou se suicidando, cortando os pulsos.
John, o filho mais velho foi assassinado quando estava no meio de um tiroteio na praça central da cidade. Dizia-se que ele fazia parte da quadrilha que assaltava o comercio local, mas nada tinha sido provado. Dizia-se também que sua irmã tinha sido violentada como parte de uma vingança de uma quadrilha rival.
Mas Corinne sempre agradecia a Deus. Eram provações que ela tinha que passar...
John, o caçula, tocava o comercio deixado por seu pai, e cuidava de sua mãe. Casou-se com uma linda garota da região, Dianne, mas não deu sorte. Ela começou a trair John com um amor de sua infância. Não tardou muito e o pobre rapaz descobriu tudo. Num acesso de fúria assassinou a esposa e seu amante, e no fim, deu um tiro em sua própria cabeça. Para Corinne, Deus continuava com suas provações...
Hoje Corinna está com 48 anos e cansada de viver. Cansou-se das provações... Na beira do lago ela pensa em como as coisas poderiam ter sido diferentes. Poderia ter fugido de casa, ou não ter aceitado o casamento. Ou poderia ter tido outro homem. Mas ela hoje está sozinha e sem ninguém. Financeiramente, ela vivia de uma pensão e de alguns aluguéis deixados por seu falecido marido... mas por dentro, ela estava aos pedaços.
Sentada a beira do lago e encostada numa arvore, ela via o seu olhar se tornar turvo, a paisagem se tornar embaçada, suas pernas e braços não mais responderem aos seus impulsos... Ela estava se despedindo do mundo. Para que viver? Deus ferrou-a a vida inteira, e agora era ela que estava no comando. Alguns comprimidos e ela agora determina seu próprio destino. Não era seu pai, seu marido, seus filhos, Deus, igreja, sociedade, agora é ela e ninguém mais.
(by A. J. Rosário - 16/01/2006)

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